Há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação
e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão,
estão justificados e em paz com Deus. Mas, para demonstrar a consistência do
que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a
condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12
-21).
Introdução ao Capítulo 6
"Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma
vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante" ( 1Co 15:45 )
Para compreendermos a exposição de Paulo nos capítulos 6 e 7 é preciso
entendermos as comparações que Paulo faz entre Cristo e Adão.
No capítulo 5 Paulo demonstrou que Adão e Cristo constituem-se 'os
cabeças' de duas famílias distintas. Este trouxe à vida (existência) os filhos
de Deus, e àquele traz à existência na condição de mortos e em inimizade com
Deus os filhos da ira, filhos da desobediência, filhos do diabo, ou filhos de
Adão.
Comparando Adão e Cristo, os contrastes são evidentes:
Em Adão a transgressão e em Cristo o dom gratuito ( Rm 5:15 );
Em Adão a condenação e em Cristo a justificação ( Rm 5:16 );
Em Adão morte e inimizade, e em Cristo vida e paz ( Rm 5:17 );
Em Adão ofensa e em Cristo justiça ( Rm 5:18 );
Adão desobedeceu e Cristo obedeceu ( Rm 5:19 );
Em Adão todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus e são
justificados em Cristo (o último Adão), gratuitamente pela sua graça por meio
da fé ( Rm 3:23 -24).
Paulo iniciou a exposição do livro de Romanos demonstrando o
comportamento dos homens destituídos de Deus, e que, todos sem exceção serão
trazidos a juízo por causa de suas obras no dia da retribuição de Deus (dia da
ira), quando também será manifesto o juízo de Deus que se deu em Adão a todos
os homens ( Rm 2:5 -11).
Paulo aponta questões futuras, demonstrando que Deus recompensará a cada
um segundo as suas obras ( Rm 2:7 -8), quando forem estabelecidos o Tribunal do
Trono Branco para os ímpios ( Rm 2:6 ), e o Tribunal de Cristo para os justos (
2Co 5:10 ).
Depois, Paulo passou a demonstrar qual a condição dos homens que hoje
estão sem Cristo: todos pecaram e juntamente se extraviaram, sem que houvesse
um único homem que fizesse o bem ( Rm 3:10 -20). Concomitantemente, ele
demonstra a condição daqueles que estão em Cristo: justificados gratuitamente
pela graça de Deus por meio da fé em Cristo!
Desta forma, há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem
sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo,
o último Adão, estão justificados e em paz com Deus.
Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no
tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens,
contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).
A exposição que Paulo faz aos cristãos Romanos é argumentativa e
principalmente teológica, diferente da exposição de Cristo, que é por parábolas
e ilustrativa.
Desta forma temos que as parábolas como os dois caminhos, as duas
portas, as árvores boas e as árvores más, as plantas que o Pai não plantou,
etc, fazem referência a Adão e a Cristo.
Depois de fazer uma exposição teológica, Paulo também apresenta uma
figura para ilustrar as considerações teológicas: os vasos para honra e os
vasos para desonra ( Rm 9:21 ).
Isto posto, verifica-se que, para estudarmos o capítulo 6 e 7 e
chegarmos a uma conclusão plausível, é preciso analisados segundo a ótica do
primeiro e do último Adão.
1 QUE diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?
A pergunta deste versículo decorre do versículo 20 do capítulo anterior.
"Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse. Mas onde o pecado
abundou, superabundou a graça (...) Que diremos, pois? Permaneceremos no
pecado, para que a graça aumente?" ( Rm 5:20 e Rm 6:1 ).
Após demonstrar que 'onde o pecado abundou, superabundou a graça', Paulo
antecipa-se àqueles que poderiam argumentar que permaneceriam no pecado visando
aumentar a graça.
'Que diremos...', ou seja, qual deve ser o entendimento do cristão? Permanecer
no pecado (em Adão), para que a graça aumente? Não! Este não deve ser o
entendimento do cristão.
Não é porque a graça superabundou onde o pecado abundou que o
comportamento do cristão deva ser de devassidão.
O pecado reinou pela morte (pena decorrente da transgressão de Adão), e
a lei somente fomentou a ofensa ( Rm 5:20 ). Mas, a graça de Deus se há
manifestado para que, da mesma forma que o pecado reinou por meio da natureza
decaída do homem (carne) e em obediência as suas concupiscências (conduta aquém
da lei de Deus), a graça também reine pela justiça através da nova natureza
(espiritual) e em obediência à justiça (conduta segundo a lei da liberdade).
2 De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos
ainda nele?
De modo nenhum! Os cristãos em Roma e o próprio escritor da carta não
permanecem no pecado.
Paulo espera que os cristãos raciocinem e cheguem a uma conclusão sobre
o 'permanecer no pecado' através do parâmetro estabelecido neste verso: Se os
cristãos 'Estão mortos para o pecado', como é possível permanecer nele? Para os
que estão mortos para o pecado não há como viver ou permanecer no pecado.
Da mesma forma que Cristo, quanto a ter morrido, 'de uma vez morreu para
o pecado' ( Rm 6:10 ), os que morreram com Cristo também de uma vez estão
mortos para o pecado ( Rm 6:8 e 10).
3 Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos
batizados na sua morte?
Para os leitores da carta que argumentassem que permaneceriam no pecado
para que a graça aumentasse, Paulo demonstra que quem assim pensa desconhece o
real significado do batismo.
Tanto Paulo quanto os leitores da sua carta havia sido batizados na
morte de Cristo por meio da fé "...fomos batizados em Jesus...", ou
seja, todos os que crêem são batizado na morte de Cristo Jesus "...um
morreu por todos, logo todos morreram" ( 2Co 5:14 ).
Se todos morreram porque Cristo morreu, isto demonstra que 'de uma vez
morreram para o pecado' conforme Paulo demonstra no verso 10.
4 De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que,
como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim
andemos nós também em novidade de vida.
É pela fé que o cristão torna-se participante da morte e da ressurreição
de Cristo. O batismo nas águas somente simboliza o que o cristão já alcançou
pela fé em Cristo: o verdadeiro batismo do homem efetivasse na morte com
Cristo.
O cristão é batizado na morte de Cristo e sepultado juntamente com ele.
Isto porque, da mesma forma que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela
glória e poder de Deus, os que com ele ressurgem obtenham nova vida (espírito)
e andem conforme ele andou (comportamento).
Neste ponto está o grande mistério revelado: Da mesma maneira que
através do primeiro Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da glória
de Deus, sendo que não há nenhum deles que pratique o bem (embora pratiquem
boas ações) ( Rm 3:10 -18 e 23), por meio de Cristo, o último Adão, os homens
são justificados e conduzidos à glória dos filhos de Deus, e estes por sua vez
não praticam o mau (embora sejam suscetíveis de praticar más ações).
Como isto é possível? Este versículo é uma explicação teológica da
figura da árvore que Cristo apresentou aos seus discípulos: "Do mesmo
modo, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus.
Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos
bons" ( Mt 7:17 -18).
Ou seja, os homens nascidos segundo a semente corruptível de Adão não
fazem o bem, e jamais poderão fazer o bem. Eles são plantas que o Pai não
plantou ( Mt 15:13 ), nascidos da semente corruptível, e portanto, árvores más,
e só podem produzir frutos maus.
Da mesma forma, os homens nascidos da semente incorruptível, que é a
palavra de Deus, estes fazem o bem, visto que as suas obras foram preparadas
por Deus de ante mão para que andassem nelas. Estes são plantas que o Pai
plantou, árvores boas, e que só produzem frutos bons.
Como Deus fez (plantou) os cristãos novas criaturas para as boas obras
(bons frutos), resta que não há como andar segundo o pecado, pois Deus já
preparou para as suas criaturas para que andassem em boas obras ( Ef 2:10 ).
Resta que, é impossível àqueles que crêem em Cristo, e que, portanto,
são boas árvores (participantes da videira verdadeira), pratiquem más obras ou
dêem maus frutos ( Tg 3:11 -12).
Com base no princípio demonstrado anteriormente é que Paulo demonstra
que é impossível aos que foram agraciados com nova vida por meio a fé em Cristo
permanecer (v. 1), viver (v. 2) ou andar segundo a velha natureza que foi
crucificada com Cristo (v. 4).
5 Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua
morte, também o seremos na da sua ressurreição;
Este versículo apresentada a mesma idéia que o apóstolo João apresenta
em uma de suas carta: "Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no da
do juízo tenhamos confiança, porque, qual ele é, somos nós também neste
mundo" ( 1Jo 4:17 ).
A exposição de João é declarativa, enquanto a de Paulo argumentativa.
João afirma categoricamente que os cristãos são como Cristo é, e aqui e agora,
neste mundo. João não aponta o mundo vindouro, quando os cristãos serão
revestidos da imortalidade, mas que, neste sistema de coisas (mundo) o Cristão
já alcançou a mesma posição do Filho de Deus.
É a maneira de João dizer que os cristãos já estão assentados nas
regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 2:6 ).
Como a exposição de Paulo é argumentativa, ele conduz o leitor para
chegar a uma conclusão. 'Se fomos...' é o mesmo que 'fomos' plantados
juntamente com Cristo na semelhança da sua morte, uma vez que com ele morremos.
Por terem sido plantados na semelhança da sua morte, os cristãos também
ressurgem dentre os mortos à semelhança de Cristo. Desta maneira, da mesma
forma que Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo. Estão assentados
nas regiões celestiais em Cristo.
6 Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para
que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.
Não há como um cristão dizer que permanecerá no pecado com a idéia de
que aumentará a graça de Deus, visto que:
O velho homem (nosso) foi crucificado com Cristo;
O corpo do pecado (carne) é desfeito, e;
Não serve mais ao pecado.
Como seria possível a alguém que crê em Cristo permanecer no pecado,
visto que os que crêem são crucificado com Cristo e tiveram o corpo do pecado
desfeito? Se o corpo do pecado foi desfeito, como viver ou andar no pecado?
O crente é crucificado e sepultado com Cristo para que não mais sirva ao
pecado, e segundo este saber, as possíveis argumentações do verso 1 são
inconsistentes.
7 Porque aquele que está morto está justificado do pecado.
Ou seja, aquele que morreu com Cristo (que está morto) justificado está
do pecado. Por assim dizer, também cessou do pecado.
Aquele que está morto para o pecado, não permanece inerte, antes
ressurge dentre os mortos para a glória de Deus Pai. O novo homem que ressurge
com Cristo, este é declarado justo diante de Deus (justificado).
Aquele que está morto para o pecado é o mesmo que vive para Deus. Por
viver para Deus é que o homem recebe a declaração de que é justo.
Os que vivem para o pecado jamais serão justificados por Deus, uma vez
que os vivos para o pecado estão mortos para Deus. Paulo disse que, quem está
morto para o pecado está justificado, isto por causa do versículo seguinte,
onde ele demonstra que quem morre com Cristo, vivem para Deus (v. 8).
A declaração de justo (justificação) é concernente a nova vida adquirida
de Deus. Para receber a nova vida é preciso morrer (ter um encontro com a cruz
de Cristo). Segue-se que a graça de Deus veio sobre todos os homens, "...
para justificação e vida" ( Rm 5:18 ).
Abordagem Histórica das Transformações Lingüística
Antes de prosseguirmos o estudo da Carta de Paulo aos Romanos, faz-se
necessário nos deter em observar as transformações que ocorreram ao longo da
história recente sobre o modo de exposição e argumentação do pensamento humano.
A abrangência interlocutiva da linguagem é um fenômeno de todos os
tempos e de todas as sociedades, porém, o estudo cientifico deste fenômeno
(Pragmática) é recente.
A tendência da metafísica ocidental a partir de Platão (428 - 427 a.c),
salvo exceções, tendeu privilegiar a
dimensão apofântica (lógica do verdadeiro e falso), declarativa e locutória da
linguagem. Perseguiam um ideal de linguagem (lógico-matemático).
O que a metafísica não alcançou, a ciência moderna se declarou herdeira.
Para os da ciência moderna (Kepler, Galileu, Descartes e Newton), fazer ciência
consiste em matematizar e formalizar, eliminando da linguagem as considerações
implícitas, tendo estes elementos da linguagem natural como equívocos ou
inadequadas ao discurso científico.
Veja o que Perelman diz da metafísica e da ciência moderna sobre o
discurso declarativo como única forma de descrição da linguagem: "Negar as
outras formas de discurso, ou a desvalorizá-las como fazia Platão, acusando de
sofístico todo o uso lingüístico não apoiado na essência, na definição, na
clareza a priori" (Perelman, citado em Meyer, 1992: 120).
Apesar do ostracismo imposto pelas regras da metafísica quando realçadas
pela 'linguagem' adotada pela ciência moderna, temos na história um outro tipo
de abordagem lingüística do discurso: a retórica.
A primeira referência a retórica remonta ao século V a.C, tendo em dois
sicilianos (Corax e Tisia) os seus idealizadores, por causa de Hiéron, um certo
tirano de Siracusa, que, segundo a lenda, teria proibido os seus súdito de
utilizar a fala.
A Retórica cresceu em importância na democracia ateniense, visto que,
saber falar para persuadir e convencer nas assembléias, tribunais, praças
públicas, etc transformou-se em necessidade.
Era preciso a quem fizesse o uso da fala saber convencer o interlocutor
da pertinência de sua abordagem. Por fim, os Sofistas, que se auto intitulavam
'mestres de Retórica' os seus principais representantes.
Aristóteles ao abordar a Retórica, transforma a 'técnica de persuasão'
em ciência quando dedica três livros a Retórica, ao compor um conjunto de
conhecimentos, categorias e regras.
Essencialmente, Aristóteles demonstrou que a Retórica visa criar meios
de persuadir um auditório acerca de uma determinada matéria. Sem fixar-se
naquilo que é demonstrável ou analítico, a Retórica tem o que é verossímil ou
provável como seu objeto, através de uma natureza puramente discursal
(dialética).
O declínio da Retórica teve início no final do século XVI num processo
que estendeu-se até o século XIX, que marca o seu desaparecimento. Ela perdeu a
influência e sofreu modificações: perdeu o seu objetivo pragmático, deixando de
aplicar-se ao persuadir para aplicar-se ao ensino de 'belos' discursos.
Tal declínio deve-se a ascensão do pensamento burguês através da
evidência pessoal do protestantismo, racional do cartesianismo ou sensível do
empirismo (Perelman 1993: 26). Este processo é marcado pelo racionalismo de
Descartes, quando erigiu a evidência em critério de verdade. Ele excluiu a
argumentação do campo do saber geral e da filosofia em particular. Para ele
evidência só através da demonstração, e nunca através da discussão (Perelman
1987: 264).
Mas, qual a relação entre a Retórica, a Metafísica e a linguagem da
ciência moderna com a abordagem a Carta de Paulo aos Romanos? A Retórica como
uma 'ciência' da argumentação de modo a persuadir e convencer o interlocutor
teve o seu ápice entre os Gregos e Romanos, sociedade que Paulo, como cidadão
Romano fazia parte, e que acabou por influenciar o estilo de composição de suas
cartas.
Para uma melhor compreensão dos escritos de Paulo, é preciso utilizar
como ferramenta de interpretação de texto e contexto elementos da Retórica. É
plenamente verificável que o método de ensino de Paulo é segundo a arte do bem
falar, de modo que ele procurava persuadir e convencer os seus interlocutores
As várias condições que Perelman enumera como sendo necessárias a
argumentação (Retórica) são plenamente observáveis nas Cartas de Paulo. Paulo
sempre:
Situa e insere- o seu discurso em um contexto determinado e dirige-se a
um auditório determinado;
Paulo como orador, através do seu discurso procurava exercer uma ação
(de persuasão ou convicção) sobre o auditório;
Os interlocutores precisam estar dispostos a escutar, ou seja, a sofrer
(aceitar)a ação do orador;
Querer persuadir implica renúncia por parte do orador em dar ordens ao
auditório, procurando antes, a sua adesão intelectual;
Paulo, além do estilo argumentativo, que nada tem a ver com a verdade do
evangelho, aponta e defende a verdade do evangelho desvinculado do seu
conhecimento humano ou do próprio uso da Retórica;
Ao argumentar, Paulo demonstra que é tão possível defender uma tese como
a sua contrária. Aplicação prática do exposto por: (Perelman, 1987: 234).
A argumentação (Retórica) de Paulo é distinta da demonstração (lógica),
visto que, a concepção da argumentação insere a noção de auditório "O
conjunto daqueles que o orador quer influenciar mediante o seu discurso"
(Perelman, 1987: 237). O 'auditório' de Paulo é os cristãos, e ele conhecia os
valores e as teses do seu auditório em especial.
Paulo era versado na Retórica, uma vez que ele não apresenta erros como
orador, que é a petição de princípio, que segundo Perelman é: "Supor
admitida uma tese que se desejaria fazer admitir pelo auditório"
(Perelman, 1987: 239-240). Durante as suas exposições, Paulo trabalha as teses
e valores do seu auditório (cristãos), mesmo quando constituído de apenas uma
ou algumas pessoas (cartas pastorais e cartas as igrejas), através do
questionamento, técnica muito utilizada por Sócrates em seus diálogos
platônicos. (Perelman, 1987: 240).
O Capítulo 6 é composto por frases argumentativas, e, portanto, elas não
devem ser consideradas ou confundidas com frases conclusivas ou afirmativas.
Quais as diferenças entre frases argumentativas, conclusivas e
afirmativas? Como interpretá-las?
Um exemplo claro de frase afirmativa é: "E esta é a mensagem que
dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas
nenhumas" ( 1Jo 1:5 ). O apóstolo João é quem trabalha muito com frase
afirmativas, ou por vezes declarativas.
Ao relembrar a mensagem anunciada por Cristo, João faz menção de uma
frase declarativa e afirmativa: Deus é luz! Tais frases são utilizadas para
evidenciar uma verdade inconteste, ou para declarar algo acerca de alguém.
Por exemplo: "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje e
eternamente" ( Hb 13:8 ). Temos uma verdade e uma declaração acerca de
Cristo Jesus. Estas frases podem ser tomadas de maneira isolada do texto e
contexto que não trarão grande prejuízo ao leitor.
Ao citar Hb 13:8 é quase impossível alguém intentar negar a
imutabilidade de Cristo, embora há quem intente.
As frases afirmativas, declarativas constituem-se premissas que dão
sustentabilidade às frases argumentativas e conclusivas.
O apóstolo Paulo é dado a linguagem argumentativa, visto que, o seu
discurso visa convencer ou persuadir, seja qual for os seus interlocutores
(judeus ou gentios). Argumentar é fornecer argumentos e razões a favor ou
contra uma determinada tese ou matéria.
A linguagem de Paulo é segundo a retórica dos Gregos e dos Romanos, que
foi concebida como a arte do bem falar, embora a doutrina apregoada por Paulo
não tenha se firmado em sublimidade de palavras ou de sabedoria ( 1Co 2:1 ). A
arte do bem falar é o falar de modo a persuadir e a convencer através da
dialética e tópica, ou seja, uma arte no conduzir o diálogo e a exposição de
temas controversos.
A arte do bem falar trabalha com operadores argumentativos que a língua
dispõe. Estes dispositivos são designados operadores e conectivos
argumentativos. Por causa destes operadores argumentativos, os enunciados de
uma frase ou oração, embora tenha uma significação própria do ponto de vista
lógico, acaba por divergir quando analisadas do ponto de vista argumentativo.
Vejamos o seguinte exemplo:
a) "Ora, a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra
até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés?";
B) "Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para
servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" ( Hb 1:13 -14).
Temos dois enunciados que se analisados do ponto de vista lógico e
argumentativo, somente o ponto de vista argumentativo faz com que o segundo
enunciado complemente o primeiro. Observe: a pergunta 'b' quando tida como um
enunciado de cunho lógico somente carece de respostas: Os anjos são ou não
ministros enviados a servir em favor dos santos?
Porém, quando analisadas argumentativamente, os operadores
argumentativos transformam simples premissas que conduzem a uma única
conclusão, diferente do que é próprio a abordagem lógica (verdadeiro - falso).
Desta forma, verifica-se que o enunciado 'b' exerce somente a função de
enfatizar a divindade de Cristo, sem a pretensão de especificar qual o
'serviço' desenvolvido pelos anjos.
Os operadores argumentativos aplicados aos enunciados transforma-os em
premissas que conduzem a uma única conclusão, posicionando o enunciado numa
certa direção que implicam em conclusões específicas.
Já os conectores argumentativos são dispositivos (advérbios, conjunções
e locuções de subordinação ou de conjunção, etc.) que permitem a conexão ou a
ligação recíproca de dois ou mais enunciados. Numa argumentação, os conectores
podem ligar as premissas entre si, as premissas com a conclusão e a conclusão
com as premissas.
Bibliografia: Retórica e Argumentação, Paulo Cesar, Universidade da
Beira Interior, 95/96.
As argumentações deste capítulo devem ser analisadas segundo o que Paulo
demonstrou nos versos 12 à 19 do capítulo 5, da mesma forma que o capítulo 3,
versos 23 ao capítulo 5, verso 11, deveriam ser analisados com base no exposto
nos versos 21 à 22 do capítulo 3.
Ao declarar que a justiça de Deus é pela fé em Cristo ( Rm 3:21 -22),
Paulo apresenta um vasto repertório de argumentos no intuito de demonstrar e
convencer alguns dos cristãos da validade do exposto, e, para demonstrar que os
seus argumentos não comportam mais que uma conclusão, ele apresenta a seguinte
conclusão: "Sendo, pois, justificados pela fé..." ( Rm 5:1 ), e no
que ela implica: "... temos paz com Deus..." ( Rm 5:1 ).
A exposição do verso 1 do capítulo 6 segue o mesmo molde do exposto
acima. Neste verso o apóstolo simplesmente antecipa-se a possíveis
'contradizentes', demonstrando que, qualquer argumento contrário ao que ele
haveria de expor, não chegaria a uma conclusão válida segundo a verdade do
evangelho, que é conforme o exposto acerca de Adão e Cristo ( Rm 5:12 -19).
O verso 1 deste capítulo fundamenta-se no verso 20 do capítulo 5, onde
fica claro que 'onde o pecado abundou, superabundou a graça', ou seja, a graça
já foi demonstrada abundante (passado) em Cristo (na sua morte), não sendo mais
necessário que alguém procurasse 'promover' a graça (para que a graça aumente).
O pecado abundou sobre os nascidos em Adão, porém, a graça de Deus
demonstrou-se superabundante por intermédio de Cristo, nosso Senhor. Qualquer
tentativa humana em promover a graça, é inócua, visto que, ela já foi
demonstrada em plenitude (superabundou), quando Cristo morreu pelos homens,
sendo eles ainda pecadores ( Rm 5:8 -10).
8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos;
Os versos 1 à 6 traz o leitor a seguinte conclusão: o cristão já morreu
com Cristo (juntamente). Observe que Paulo inclui-se na narrativa ao demonstrar
que, ele e os destinatários da carta, morreram com Cristo.
Até o verso 2 deste capítulo o apóstolo tão somente fez referência à
morte de Cristo, demonstrando que, Ele foi entregue e morto por causa dos
pecados dos homens que foram gerados em Adão ( Rm 4:25 ). As questões acerca da
morte de Cristo, que reconciliou os que crêem com Deus, são plenamente
respondidas ( Rm 5:10 ), porém, como se deu a justificação dos que crêem, está
questão é respondida através dos versículos que demonstram que os cristãos
também morreram com Cristo.
O verso 8 é um enunciado argumentativo por causa dos conectores
argumentativos (ora, se e que), porém, o enunciado apresenta o seguinte
pressuposto: Já morremos (os cristãos) com Cristo.
Em primeiro lugar, o apóstolo demonstrou que Cristo morreu ( Rm 5:8 )
(argumentação segundo valores intrínsecos a ele e seus interlocutores: a fé no
evangelho). Todos os cristãos sabiam que Cristo havia morrido na cruz do
calvário! Temos na argumentação uma premissa: Cristo morreu.
Logo em seguida, Paulo apresenta outro enunciado argumentativo, do qual
podemos extrair a seguinte premissa: todos os cristãos estão mortos para o
pecado ( Rm 6:2 ). Após apresentar um novo enunciado argumentativo, Paulo
procura certificar-se de que todos possuíam o mesmo conhecimento: "Ou não
sabeis que..." ( Rm 6:3 ), de que o batismo do cristão representa a sua
morte com Cristo.
Dai segue-se o seguinte raciocínio:
a) Cristo morreu (premissa 1);
b) Os que crêem morreram com ele para o pecado (premissa 2 - é o que o
batismo representa);
c) surge a conclusão ao relacionar a premissa 1 com a premissa 2: Como
Cristo morreu e os cristãos também morreram, logo, assim como Cristo ressurgiu
dentre os mortos, os cristãos também ressurgiram com Ele ( Cl 3:1 ).
Mas, por que o versículo aponta que com Cristo viveremos (futuro), e não
que com ele vivemos (presente)? Por causa do exposto no verso 5, onde o
apóstolo destaca a semelhança com Cristo. Ou seja, os cristãos foram plantados
juntamente com Cristo na semelhança da sua morte para que os cristãos alcancem
a semelhança do Cristo ressurreto, o que ocorrerá quando o que é mortal se
revestir da imortalidade (futuro).
Hoje o cristão vive e anda em Espírito, pois o corpo do pecado foi
desfeito na cruz do calvário, porém, só alcançará a semelhança da ressurreição
de Cristo, quando da manifestação dos filhos de Deus ( Rm 8:19 ), que serão
semelhantes a Cristo.
Desde o momento em que o homem crê, ele passa a viver e andar segundo a
vida concedida por Deus, porém, este versículo destaca que a vida com Deus é
sempiterna (viveremos = habitaremos para sempre). "Ora se já morremos com
Cristo, cremos que também com ele viveremos", ou seja, o viveremos indica
a eficácia da salvação poderosa providenciada por Deus e manifesta na morte de
Cristo (graça superabundante).
9 Sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não
morre; a morte não mais tem domínio sobre ele.
No verso três Paulo, lembra os cristãos que todos foram batizados na
morte de Cristo "Ou não sabeis que..." (v. 3), e nos versos 6 e 9,
ele demonstra que todos tinham um conhecimento em comum "Pois sabemos isso
(...) Pois sabemos que..." (vs. 6 e 9).
Os cristãos sabiam que Cristo morreu (v. 3), e que havia ressuscitado
dentre os mortos, e que Ele jamais voltaria a morrer novamente. Cristo jamais
voltará a se sujeitar a passar pela paixão da morte, uma vez que ela foi
vencida na cruz do calvário.
10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas,
quanto a viver, vive para Deus.
O verso 10 complementa o verso anterior. Paulo reafirma que, quanto a
ter morrido, Cristo morreu uma só vez por causa do pecado da humanidade
decorrente de Adão. Porém, com relação a vida decorrente da ressurreição, Ele
vive para sempre à destra de Deus.
Este verso demonstra que, se os cristãos realmente criam que
efetivamente morreram à semelhança de Cristo, isto significava que eles também
morreram de uma vez (não é preciso morrer outra vez) e para sempre para o
pecado. Da mesma forma, quanto a viver, viverão para sempre com Deus à
semelhança de Cristo "...cremos que também com ele viveremos" (v. 9).
11 Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos
para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.
Paulo procura conscientizar os seus leitores a considerarem (Retórica
perfeita) que estavam mortos para o pecado e vivos para Deus. "Assim
também..." remete as considerações apresentadas anteriormente.
Ou seja, da mesma maneira que 'conheciam' que Cristo morreu uma única
vez por causa do pecado e foi sepultado, os cristãos deveriam considerar
estarem mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus.
Esta relação entre a morte de Cristo e a morte dos cristãos, e a vida de
Cristo e a nova vida dos cristãos Paulo Já havia estabelecido no verso 8,
porém, discorre de forma a não deixar dúvidas quando a morte dos cristãos para
o pecado, e ressurreição deles para vida, por meio de Cristo Jesus.
Considerar é ter em conta, ou seja, é andar conforme a nova vida
alcançada "...assim andemos nós também em novidade de vida" (v. 4).
Paulo não recomenda um faz de conta ao pedir que os cristãos considerassem
estarem mortos para o pecado e vivos para Deus. Eles deviam contar com a nova
vida e descansar por estarem de posse dela (regeneração), porém, andarem de
modo digno da nova condição alcançada graciosamente (comportamento).
12 Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe
obedecerdes em suas concupiscências;
Os versos 12 e 13 não devem ser considerados como uma determinação
(ordem), pois é próprio à retórica a renúncia, pelo orador, a dar ordens ao
auditório.
A conjunção coordenativa conclusiva (portanto) demonstra que todo o
enunciado (vs 12 e 13) depende das considerações expostas anteriormente (vs 9-
12), ou seja, o verso 12 não é uma ordem direta e inflexível (Não reine.), como
se o homem possuísse domínio sobre o pecado (isto considerando o pecado quanto
a figura de senhor).
A partir do momento que o cristão considera que está morto para o pecado
(v. 11), automaticamente estará cônscio de que o pecado não exerce domínio
sobre ele (reinado), e que já não cumpre com as obrigações do pecado.
O pecado não exerce domínio (reine) sobre o corpo mortal dos que crêem,
de maneira que o cristão 'deva' se submeter as suas concupiscências (do
pecado).
Este verso apresenta a mesma idéia do verso 14: a partir do momento que
o homem passa a estar debaixo da graça, é porque o corpo do pecado foi desfeito
(v. 6) e a lei não exerce qualquer influência sobre ele. O pecado deixa de ter
domínio, e portanto, já não reina o pecado sobre o corpo mortal dos que crêem.
Este versículo apresenta uma nova realidade aos cristãos, e não uma
determinação do apóstolo aos cristãos.
13 Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos
de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos
membros a Deus, como instrumentos de justiça.
A nova condição em Cristo permite aos cristãos não apresentar os seus
membros (corpo mortal) ao pecado (antigo senhor) por instrumento de iniqüidade.
Diante da nova realidade decorrente da morte com Cristo que é a do pecado não
exercer domínio (não reine) sobre os seus ouvintes, Paulo apresenta argumentos
que demonstram ser possível também andar em novidade de vida.
Os que morreram com Cristo passaram à condição de vivos para Deus, uma
vez que rejeitaram o pecado através da fé em Cristo, e podiam apresentarem-se a
Deus, visto que estavam de posse da nova condição: vivos dentre mortos.
Apresentar-se a Deus refere-se ao serviço voluntário do servo ao seu
novo Senhor, ou seja, é estar consciente de que os seus membros (corpo) deve
estar a serviço do seu Senhor como instrumento de justiça.
Observe que a função de instrumento é estabelecida através de um
comparativo: 'como' instrumento. Os homens não são instrumentos, porém, podem entregar-se 'como'
instrumento de iniqüidade ou de justiça. Um instrumento não tem iniciativa própria,
ficando na dependência de quem o usa. Este comparativo nos remete à carta de
Paulo aos Gálatas: "Estes se opõem-se um ao outro, para que não façais o
que quereis" ( Gl 5:17 ).
Um instrumento não possui vontade própria, e por isso carne, e Espírito
se põem, para terem os homens como instrumentos. Desta forma os homens como
instrumento não fazem o que desejam, antes, são utilizados como instrumento, ou
da carne para a iniqüidade, ou do Espírito para a justiça.
Um instrumento não possui vontade própria, da mesma forma se
estabelecermos este comparativo a pessoa de um escravo. Apesar de um escravo
possuir 'vontade' por ser um ser humano reduzido a servidão, a condição de
servidão faz com que o escravo não passe da condição de um objeto.
Um escravo era tido como um instrumento de produção (máquina), e a sua
vontade não era levado em conta, visto que:
a) um escravo não podia possuir propriedades (bens);
b) tudo quanto produz pertence por direito ao seu Senhor, e;
c) em última instância, o escravo não passa da condição de propriedade
do seu senhor.
A única certeza de um escravo quanto a receber alguma coisa desta vida
era a morte, que o tornaria livre do seu senhor. Desta forma, a morte seria o
único salário (recompensa) que um escravo teria direito, pois, como 'coisa' que
era, um escravo não podia ter posses ou herdades.
14 Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo
da lei, mas debaixo da graça.
Após saber ou conhecer que Cristo ressurgiu dentre os mortos e que a
morte não tem domínio sobre Ele, resta que o pecado não tem domínio sobre os
cristãos, uma vez que ressurgiram com Cristo (v. 9) "Portanto, se fostes
ressuscitados com Cristo..." ( Cl 3:1 ).
O fato de os cristãos terem sido batizados com Cristo na sua morte, e
ressurgido dentre mos mortos para a glória do Pai (v. 4), tirou-os da condição
de sujeição a lei, para estabelecê-los debaixo da graça de Deus.
A premissa é: o pecado não tem domínio sobre o cristão. Mas, tal
premissa é introduzida por um operador e conectivo argumentativo: porque -
conjunção coordenativa explicativa. Ou seja, a premissa (o pecado não terá
domínio sobre vós) do verso 14 é introduzida como uma explicação sobre porque o
cristão deve considerar-se morto para o pecado e vivo para Deus.
Jesus Cristo Crucificado
Paulo foi instruído (versado) na arte do bem falar, porém, as suas
mensagens não estavam apoiadas e nem consistiam em conhecimento humano
(retórica). O tema das suas mensagens era e é a cruz de Cristo "E EU,
irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui
com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre
vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado" ( 1Co 2:1 -2).
Demonstramos anteriormente que (pág. 17), através da arte do bem falar,
Paulo trabalhava a concepção dos ouvintes através da persuasão, porém, em
momento algum ele esteve apoiado em elementos provenientes da sabedoria humana
(retórica) "A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em
palavras persuasivas de sabedoria humana..." ( 1Co 2:4 ).
Ao expor o evangelho de Cristo, Paulo não estava confiado na Retórica
(sublimidade de palavras ou palavras persuasivas de sabedoria humana), antes
estava cônscio de que a mensagem do evangelho é poder de Deus ( 1Co 2:5 ; Rm
1:16 ).
Paulo demonstrava efusivamente que a mensagem do evangelho é Espírito e
poder (vida), para que os cristãos não depositassem confiança em meras palavras
de conhecimento humano "O Espírito é o que vivifica, a carne para nada
aproveita; as palavras que eu vos disse são Espírito e vida" ( Jo 6:63 )
compare: "A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras
persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de
poder" ( 1Co 2:5 ).
Observe a relação entre 'poder' e 'vida': a vida eterna decorre do poder
que emana de Deus por meio da fé em Cristo, o Verbo de Deus, que é a vida de
Deus concedida graciosamente aos homens ( Jo 1:4 ).
Jesus, ao falar de si mesmo, apresentou-se como a vida de Deus concedida
aos homens ( Jo 14:6 ), e Paulo ao testificar d'Ele, apresenta-O como 'poder de
Deus', visto que, somente através do poder de Deus (evangelho) os homens
alcançam a vida eterna.
Observe a primeira carta aos Coríntios, onde é possível inferir que as
divisões entre os cristãos em vários partidos eram provenientes do entendimento
de alguns que estabeleciam aqueles que detinham maior conhecimento humano em
uma posição de preeminência sobre os demais ( 1Co 1:13 ).
O que percebemos através dos textos bíblicos é que Paulo não promovia
estas desavenças. Paulo procurava demonstrar que todos os cristãos foram
agraciados e enriquecidos em Cristo, em toda palavra e conhecimento, de modo
que, nenhum dom faltava aos cristãos ( 1Co 1:5 ). Se todos foram de igual modo
enriquecido em conhecimento e sabedoria, porque estavam se gloriando nos homens
se tudo pertencia a eles? ( 1Co 3:21 ).
Se todos os cristãos foram enriquecidos em Cristo em tudo, para quê
focar elementos provenientes do conhecimento humano "...os quais são
vãos" ( 1Co 3:20 ), se a maior riqueza está na cruz de Cristo?
Paulo demonstra que nada propôs saber aos cristãos, a não ser a Cristo,
e Este crucificado "Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus
Cristo, e este crucificado" ( 1Co 2:2 ), ou seja, o apóstolo não
apresentou aos cristãos elementos de sabedoria humana, visto que, tal sabedoria
é vã e não vem do alto, conforme também atesta o apóstolo Tiago ( Tg 3:14 -15).
As dissensões nas igrejas eram provenientes daqueles que estavam
equivocados em sua carnal compreensão. Tinham a si mesmos por sábios, mas
esqueciam que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus ( 1Co 3:18 -19).
Além daqueles que consideravam a si mesmos por sábios segundo a
sabedoria deste mundo, havia outros que se gloriavam naqueles que se diziam
sábios, o que potencializava as contendas entre os cristãos "...portanto,
ninguém se glorie nos homens!" ( 1Co 3:21 ).
Através do exposto por Paulo aos cristãos de Coríntios, verifica-se que
a mensagem do evangelho não se mescla à sabedoria humana. Enquanto esta é vã,
aquela promove a vida eterna.
Quando Paulo escreveu que a sabedoria deste mundo é vã, ele não estava
descartando de todo o conhecimento humano. É salutar que os cristãos sejam
instruídos no conhecimento secular, porém, é preciso compreender que o homem
jamais se achegará a Deus por meio deste conhecimento.
Enquanto na condição de 'peregrinos' nesta vida, o cristão precisa
instrui-se para melhor relacionar-se com os concidadãos deste mundo, mas deve
estar ciente de que a instrução deste mundo não o torna apto a compreender as
coisas do reino de Deus.
Alguém pode perguntar: por quê? A bíblia apresenta vários motivos:
Ter um diploma ou ser versado em ciências humanas não habilita homem
algum a compreender a mensagem do evangelho "Ora, o homem natural não
compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não
pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente" ( 1Co 2:14 );
A mensagem do evangelho é loucura para os sábios deste mundo
"Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem..." ( 1Co
1:18 );
A sabedoria deste mundo não promove o conhecimento de Deus "Visto
como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua
sabedoria..." ( 1Co 1:21 );
O evangelho apresenta Deus se revelando aos homens por intermédio do seu
Espírito, mas nenhum dos 'príncipes' deste mundo conheceu a Cristo, embora
fossem sábios e entendidos "A qual nenhum dos príncipes deste mundo
conheceu (...) Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito..." ( 1Co 2:8
-10).
O que observamos em Paulo é que, apesar de ele ter sido instruído nas
questões seculares, ele não usou desta sabedoria para se impor sobre os demais
cristãos. Porém, não podemos negar que, ao expor o evangelho em suas cartas,
Paulo utiliza elementos da retórica para melhor expor a verdade do evangelho.
Mas, quando comparamos as cartas de Paulo e Pedro, verificamos que, com
relação à mensagem apregoada, as cartas de Pedro não ficam aquém do exposto
pelas cartas Paulinas.
O problema quanto à sabedoria deste mundo surge quando alguém se arroga
na posição de sábio e mestre, porém, firma-se na sabedoria deste mundo, e não
na sabedoria que é do alto, proveniente da revelação de Deus por intermédio do
evangelho ( 1Co 3:18 -20).
O homem movido pelo conhecimento deste mundo se vangloria em suas
conquistas pessoais e apresentam os seus títulos como troféus. Acaba
ensoberbecendo-se contra o seu irmão, e
esquece que, as conquistas pessoais deste mundo não tornam ninguém diferente
perante Deus "Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas
recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras
recebido?" ( 1Co 4:7 ).
Um exemplo claro de como o conhecimento humano interfere na compreensão
da palavra do evangelho encontramos na doutrina da justificação.
Muitos estudiosos ao examinar a bíblia compreendem que a justiça divina
é semelhante a apresentada nos tribunais humanos, e estabelecem esta relação
pura e simplesmente por causa da palavra 'justificação'.
Scofield e Bancroft comungam da mesma opinião quando fazem referência à
justificação: "A justificação é o ato judicial de Deus, mediante o qual
aquele que deposita sua confiança em Cristo é declarado justo a Seus
olhos..." Teologia Elementar, Bancroft, Emery H., Editora EBR, 3º Ed.,
pág. 255 (grifo nosso), e nota explicativa do rodapé da Bíblia de Scofield com
Referências à Rm 3: 28.
Na mesma página, Bancroft dá uma definição 'bíblica' para a palavra
justificação: "A palavra 'justificação', tanto na terminologia religiosa
como na linguagem comum, é um termo ligado à lei (...) É termo técnico e
forense...". Destas colocações surge a pergunta: Onde está definido que a
palavra justificação é termo técnico e forense? O que se percebe, é que homens
versados em ciências jurídicas passaram a adotar o termo 'justificação' como
sendo um termo jurídico por entenderem que a justiça divina assemelhasse a
justiça humana, ou seja, que Deus também trabalha com 'ato judicial'.
Ledo engano! Isto quando não apresenta contradições em suas definições.
Se considerarmos as notas de Scofield, o que é justificação? É um ato judicial
ou um ato de reconhecimento divino?
Se considerarmos a bíblia, verificaremos que os dois conceitos não
condizem com a verdade. A bíblia não trás uma definição, porém, ela apresenta
elementos que apontam para a seguinte definição: Justificação resulta de um ato
criativo de Deus!
Por que um ato criativo? Por que envolve o poder de Deus. O homem só é
justificado (tornar justo, declarar justo, declarar reto ou livre de culpa e
merecimento de castigo) quando crê no evangelho e recebe poder para ser feito
(criado) novamente (regeneração) um novo homem em verdadeira justiça e
santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).
A necessidade da justificação do homem não é por causa de seus atos,
antes por causa da natureza herdada em Adão. Por isso a justificação é de vida,
através da ressurreição com Cristo, onde o poder manifesto em Cristo, também se
manifesta sobre os que crêem "Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo
sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça
veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida" ( Rm 5:18 ;
Ef 1:19 -20).
Desta maneira, verifica-se que o conhecimento humano não alcança a
magnitude da revelação de Deus por meio do evangelho. A sabedoria de Deus não
surpreende somente os homens uma vez que a multiforme sabedoria de Deus é
revelada aos principados e potestades por intermédio da igreja.
Enquanto o mundo procura sabedoria, o cristão deve fixar-se na mensagem
da cruz de Cristo, que é escândalo para os sábios deste mundo, porém, a
sabedoria de Deus confunde a sabedoria dos sábios deste mundo, pois o que é
anunciado por meio do evangelho constitui-se poder de Deus.
15 Pois que? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da
graça? De modo nenhum.
A argumentação apresentada no verso 2 é complementada através deste
verso e apresenta a mesma colocação de João e uma de suas cartas:
"Qualquer que permanece nele não peca (...) Qualquer que é nascido de Deus
não comente pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar,
porque é nascido de Deus" ( 1Jo 3:6 -9).
Sem esquecer que os argumentos deste capítulo fundamenta-se no capítulo
5, do verso 12 ao 21, João apresenta uma figura que ilustra a condição daquele
que á nascido de Deus, ou seja, é uma planta plantada por Deus "Ele,
porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou,
será arrancada" ( Mt 15:13 ).
João apresenta o motivo pelo qual o homem nascido de Deus não peca:
porque a semente de Deus permanece nele, ou seja, o que determina o tipo de uma
planta é a semente.
A bíblia apresenta dois tipos de sementes: a corruptível e a
incorruptível. Está é a palavra de Deus e aquela refere-se a semente corruptível
de Adão, por quem todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus
por causa da semente de Adão.
Sabemos que uma planta não pode produzir dois tipos de frutos, e nesta
ilustração, verifica-se que a planta plantada pelo Pai só pode produzir segundo
a semente planta. É um contra senso considerar que a planta que o Pai plantou
possa produzir dois tipos de frutos: o bem e o mau.
Segundo o que Paulo apresentou temos:
Os mortos para o pecado não podem viver para o pecado ( Rm 6:2 );
Ao ser plantado na semelhança da morte de Cristo, o homem é semelhante a
Cristo na ressurreição ( Rm 6:5 ). Uma vez que os cristãos já ressuscitaram com
Cristo ( Rm 6:8 ; Cl 3:1 ), segue-se que, qual Ele é, os cristãos o são neste
mundo "Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo
tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo" (
1Jo 4:17 );
A única referência às questões comportamentais no capítulo 6 refere-se a
"andar em novidade de vida" ( Rm 6:4 ), visto que 'viver em Espírito'
diz da nova vida proveniente de Deus;
Uma vez que os cristãos não estão debaixo da lei, mas da graça, segue-se
que o pecado perdeu o seu domínio ( Rm 6:14 ). Como um servo só pode servir a
um senhor, conclui-se que é impossível aos que tem a Cristo como Senhor em suas
vidas produzir para Deus e para o pecado.
Neste versículo (v. 15) Paulo retoma a abordagem do verso 2, e demonstra
que não há como o cristão pecar (De modo nenhum). Paulo demonstra que este
saber era comum aos cristãos, visto que eles sabiam que haviam morrido com
Cristo (v. 6). Também sabiam que Cristo havia ressuscitado dentre os mortos (v.
9). Mas, no que implica a morte e a ressurreição de Cristo?
Uma vez que o velho homem foi crucificado com Cristo (v. 6), segue-se
que, com a 'morte' do velho homem, o cristão é declarado justo (v. 7), conforme
demonstra o verso 5: "Porque, uma vez que temos sido plantados juntamente
com Ele na semelhança da Sua morte..." assim é o cristão, justo e santo
'na semelhança da Sua ressurreição' ( 1Jo 4:17 ).
Uma vez que os cristãos já morreram com Cristo e a ressurreição é na
semelhança da ressurreição de Cristo, segue-se que aqueles que morrem
juntamente com Cristo, de uma vez por todas morrem para o pecado, já que tanto
Cristo como os cristãos passaram a viver para Deus por intermédio da
ressurreição. Desta forma os cristãos estão assentados nas regiões celestiais
em Cristo, por causa da nova condição do homem espiritual gerado em Cristo (v.
10).
Muitos entendem que neste versículo (v. 15) Paulo está perguntado aos
seus leitores se é pertinente aos cristãos permanecerem em uma vida de
devassidão simplesmente por não terem o freio da lei, uma vez que agora estão
na graça.
Mas, não é esta a colocação do apóstolo. É preciso considerar a primeira
pergunta: "Pois que?", que introduz os elementos necessário à
compreensão do leitor, quando ler a conclusão: "De modo nenhum".
Paulo através da pergunta: "Pecaremos porque não estamos debaixo da
lei, mas debaixo da graça?" procurou introduzir uma nova figura que ilustrasse
e trouxesse conhecimento aos Cristãos: "Não sabeis vós que..." (v.
16), contrastando com o conhecimento que era comum: "Sabendo isto..."
(v. 6 e 9).
Após apresentar Adão e Cristo, o pecado e a graça no capítulo anterior (
Rm 5:12 -21), neste capítulo, a primeira referência à lei encontra-se no
verso15. Através deste versículo Paulo demonstra que a ausência da lei não
determina a condição de submissão ao pecado, e sim o fato de o homem ter
herdado de Adão tal condição. Antes mesmo de ser instituída a lei, já estava o
pecado no mundo ( Rm 5:13 ), o que demonstra que a abundante graça de Deus
promove a justificação de vida ( Rm 5:18 ), em contraste à condenação herdada
de Adão.
Na justificação, Deus declara o homem livre de pecado e culpa, ou seja,
o homem é justo perante Ele. Para receber tal declaração de Deus é preciso que
o homem não esteja na condição de sujeição ao pecado, e, para isso, não pode
pecar, uma vez que somente os escravos do pecado pecam "Respondeu-lhes
Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é
servo do pecado" ( Jo 8:34 ).
Somente cometem pecado os servos do pecado, ou seja, àqueles nascido da
semente corruptível de Adão. Isto porque, segundo o apóstolo João, os que tem
em si a semente de Deus, nascidos da vontade de Deus ( Jo 1:12 ), estes não
pecam ( 1Jo 3:6 -9).
A frase 'De modo nenhum (...) Pecaremos..." não é uma determinação
divina que o homem deva cumprir como uma lei, antes diz da impossibilidade da
nova natureza criada na regeneração através da semente incorruptível pecar.
Por não estarmos debaixo da lei (tutelados) pecaremos? De modo nenhum!
Pois que os que morreram e ressurgiram com Cristo, de uma vez morreram para o
pecado.
16 Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe
obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou
da obediência para a justiça?
A frase 'De nenhum modo' pede uma explicação da parte do apóstolo sobre
a impossibilidade de o homem pecar quando alcançado pela graça. Tal explicação
advém de elementos pertinente à figura do escavo, que é introduzida através da
argumentação seguinte "Não sabeis vós...?".
Não sabeis vós que é impossível servir a dois senhores? Não sabeis vós
que a árvore só produz fruto segundo a sua espécie? Ou não sabeis que um fonte
não pode jorrar água doce e salgada? ( Tg 3:12 ). Todas estas figuras
complementam-se e apontam para os elementos apresentados por Cristo acerca das
duas portas e dos dois caminhos.
Como o homem apresenta-se como servo para obedecer ao seu senhor (...a
quem vos apresentardes por servos...)? Ou seja, como o homem passa a condição
de servo daquele a quem ele obedece (pecado ou obediência)?
A bíblia é clara sobre este aspecto. Todos os homens quando vem ao mundo
através do nascimento natural, segundo Adão, apresentam-se ao pecado para o
servir e obedecer. Ou seja, o nascimento natural é a porta larga que dá acesso
a um caminho espaçoso que conduz a perdição "Entrai pela porta estreita;
porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos
são os que entram por ela" ( Mt 7:13 ).
O nascimento segundo a semente corruptível de Adão (natural) é a maneira
como o homem se apresenta como servo ao pecado. É o nascimento segundo a
vontade da carne, segundo a vontade do varão e do sangue que coloca o homem em
sujeição e em obediência ao pecado ( Jo 1:13 ).
Como o homem se apresenta a Deus como servo? Através da obediência a
palavra da verdade (evangelho) "...obedecestes de coração a forma de
doutrina a que fostes entregues" (v. 17).
17 Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de
coração à forma de doutrina a que fostes entregues.
Paulo agradece a Deus por de modo nenhum ser possível àqueles que
morreram e ressurgiram com Cristo pecarem. Graças a Deus, pois outrora os
cristãos foram escravos do pecado, mas, agora, em Cristo, por terem obedecido
de coração à forma de doutrina a que foram entregue, foram feitos servos da
justiça.
18 E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.
Esta é a condição daqueles que obedeceram a verdade do evangelho:
libertos do pecado e servos da justiça.
É Deus que, por intermédio de Cristo, faz (feitos= criados) os que crêem
servos da justiça ( Jo 1:12 ).
19 Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como
apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para
maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para
santificação.
(Falo como homem) - Observe o comentário ao capítulo 3, verso 5. Por
causa da fraqueza da carne ou para evidenciar a condição da carne é que Paulo
ilustra o tema como se os cristãos judeus ainda estivessem na carne.
Observe que ao falar aos Judeus Paulo se inclui na explicação "Qual
é a vantagem do Judeus? (...) E, se a nossa injustiça for causa da justiça de
Deus? ... (Falo como homem)" ( Rm 3:1 -5).
Da mesma forma, ao escrever aos cristãos da Galácia, Paulo assim diz:
"Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para
que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito. Irmãos, como homem falo; se a
aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta" ( Gl
3:14 -15).
'Nós' quem? Paulo fala acerca da bênção de Abraão aos gentios e da
promessa do Espírito aos judeus, e que, tanto Paulo e os cristãos judeus
receberam (nós).
Por ter feito referência a sua condição como judeu, ou seja, quando
Paulo ainda estava na carne, é que ele introduz a ressalva: falo como homem.
Isto demonstra que Paulo jamais quis se valer da sua condição de judeu para
anunciar a verdade do evangelho.
Neste versículo Paulo registrou que falava como homem porque no verso 1
do capítulo 4 ele fez referência a seu irmãos na carne "Que diremos, pois,
ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne" ( Rm 4:1 ), sendo que, as
escrituras foram deixadas aos descendentes de Abraão segundo a carne "Ora,
não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta, mas também
por nós, a quem será tomado em conta..." ( Rm 4:23 -24).
Em seguida Paulo demonstra que ser descendente de Abraão é ser fraco,
visto que, ser descendente de Abraão não é ser filho de Abraão "Porque
Cristo, estando nós ainda fracos..." ( Rm 5:6 ). Ser filho de Abraão só é
possível por meio da fé.
Desta maneira, ao chegar no capítulo 6, verso 19, Paulo reitera que,
falou como homem, por causa da fraqueza da carne dos judeus, que não aproxima
homem algum de Deus "Falo como homem, pela fraqueza da vossa
carne..." (v. 19).
Compare: 'nós ainda fracos' diz de Paulo e dos judeus quando ainda estavam
sem Cristo, e 'pela fraqueza da vossa carne' diz da condição dos judeus que
confiavam da carne (descendência de Abraão) para a salvação, condição que Paulo
não mais estava.
Após evidenciar a nova condição daqueles que estão em Cristo (v. 18),
Paulo procurou tratar do comportamento dos cristãos judeus, visto que, por ter
sido evidenciado que eles não estavam mais tutelados pela lei (v. 14),
consideravam Paulo um libertino "Façamos males para que venham bens?"
( Rm 3:8 ).
Ora (pois que), se os cristãos judeus haviam apresentado os seus corpos
para servirem à imundície e a maldade através da sujeição à lei, embora as suas
ações fossem alvo de louvor por parte dos homens por causa da moral e ética que
seguiam, por que não continuar a fazer boas ações e receber de Deus o louvor?
Paulo estabelece um comparativo entre o antes e o depois de aceitarem a
verdade do evangelho: "...assim como apresentastes os vossos membros (...)
assim apresentai agora os vossos membros ..." ( Rm 6:19 ).
Compare:
Na fraqueza da carne, ou seja, na submissão à lei, por acreditar que
eram filhos de Abraão (de Deus) por serem descendentes de Abraão, permaneciam
filhos da ira e da desobediência, permaneciam carnais.
No poder do Espírito, ou seja, na submissão à graça por meio da fé em
Cristo, os judeus cristãos tornaram-se filhos de Abraão, livrando-se da
fraqueza da carne e foram criados homens
espirituais ( Jo 1:12 e Jo 3:6 ).
Por quererem servir a Deus por intermédio da lei, os judeus possuíam uma
conduta ilibada se comparado aos outros povos de sua época, porém, esta devoção
à lei somente era um serviço à maldade e a imundície.
Assim como possuíam uma conduta ilibada diante dos homens por pensarem
que era possível servir a Deus por intermédio da lei, agora, libertos da lei e
servos da justiça, os cristãos judeus deveriam da mesma forma comportarem-se de
modo ilibado e receberiam o louvor de Deus.
Por serem escravos do pecado, tudo o que cumpriam da lei era um serviço
à imundície e a maldade, pois o senhor deles continuava sendo a maldade, ou o
pecado.
Agora, sendo servos da justiça pela fé em Cristo, tudo o que os cristãos
realizassem estava sendo realizado em Deus, que preparou as boas obras para que
os de novo nascido andassem nelas ( Ef 2:10 ).
Ou seja, se eles não se livrassem da condenação de Adão que os fez
filhos da ira e da desobediência, permaneceriam mortos em delitos e pecados,
embora as suas ações fossem louvadas pelos homens. Mas, diante dos homens, tais
obras não passavam de trapo de imundície, visto que tentava cobrir o velho
homem decorrente da natureza de sujeição ao pecado herdada de Adão.
Ou seja, agora, livres da condenação de Adão e feitos filhos de Deus,
deveriam comporta-se de modo digno da nova condição em Cristo.
Embora o que importa é a nova natureza adquirida por meio da fé que
opera pelo amor ( Gl 5:6 ), não deveriam entregar-se a devassidão, por não
estarem debaixo da lei.
Como os cristãos apresentaram os seus membros para servir à justiça? Por
intermédio da fé na mensagem do evangelho, que é poder de Deus, que faz dos
homens que crêem filhos de Deus.
Após ter sido liberto do pecado, os cristãos foram feitos servos de
Deus, e tudo que produzem pertence àquele que os santificou "... para
santificação" (v. 19). Não é a prática do que é puro e bom que promove a
santificação dos cristãos como alguns pensam, antes, os cristãos foram
santificados pela fé em Cristo ( At 26:18 ).
Quando a bíblia diz que é preciso servir à justiça "...para
santificação", ocorre o que chamamos em português de figuras de palavras,
e neste caso em específico temos a 'antonomásia' ou a 'perífrase', que consiste
em uma transposição de significado de uma palavra que usualmente significa uma
coisa para ser usada com outro significado.
Neste versículo temos a palavra santificação, que é a obra de Cristo no
homens que crêem, sendo usada em lugar do nome do autor da santificação, dada a
relação de semelhança ou possibilidade de associação entre eles. O cristãos
serve à justiça 'para Cristo', aquele que santifica, ou seja, o autor da
santificação.
metonímia: consiste numa transposição de significado, ou seja, uma
palavra que usualmente significa uma coisa passa a ser usada com outro
significado. A metonímia explora a relação lógica entre os termos. Ex.:
Não tinha teto em que se abrigasse (teto em lugar de casa).
20 Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça.
Este versículo expressa o principio: "Nenhum servo pode servir dois
senhores" ( Lc 16:13 ). A sujeição de um servo a um senhor o torna livre
de qualquer outro senhor.
Servo do pecado, livre da justiça. Servo da justiça, livre do pecado.
Como servos da justiça os cristãos devem servi-la segundo aquele que santifica.
É o mesmo que: "Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito" (
Gl 5:25 ), ou seja, se servimos a justiça por vivermos em Espírito, devemos ser
puros e bondosos para andarmos em Espírito, andarmos segundo a vontade de Deus.
21 E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais?
Porque o fim delas é a morte.
Como entender este versículo? Qual era o fruto (resultado) que os judeus
tinham, e que agora, por estarem em Cristo, era causa de vergonha? Que 'coisas'
eram estas que o fim delas é a morte?
Este versículo é melhor traduzido desta maneira: "Naquele tempo que
resultado colhestes? Somente as cousas de que agora vos envergonhais; por que o
fim delas é a morte" Ed. Revista e Atualizada no Brasil, SBB.
Que fruto os judeus colheram por terem se escudado no sobre nome judeu,
repousado na lei e se gloriado em 'saber' a vontade de Deus? Nenhum, visto que,
a verdadeira circuncisão é a do coração, no Espírito, não na letra (lei) ( Rm
2:17 e 29).
O que eles ensinavam podia livrar-lhes da condenação em Adão? Não! Não
bastava professar serem filhos de Deus por serem descendentes de Abraão ( Mt
3:9 ), antes precisavam produzir frutos dignos de arrependimento, ou seja,
professar o nome de Cristo que estava trazendo o reino dos céus aos homens.
Era motivo de vergonha aos judeus terem assumido a posição de mestres,
quando na verdade estavam igualmente perdidos como os demais homens, pois todos
pecaram e destituídos estavam da glória de Deus ( Rm 2:19 -23). Os judeus não
estavam em uma posição privilegiada se comparada a dos gentios ( Rm 3:9 ),
porém, os seus discursos eram de falsidade e promovia a morte.
22 Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o
vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna.
Paulo demonstra que, por estarem em Cristo, agora estavam libertos do
pecado e em sujeição à justiça.
Os cristãos judeus por serem servos da justiça deveriam professar
(fruto) a verdade do evangelho, e não mesclar a lei ao evangelho.
Observe que 'fruto' neste versículo não se refere a comportamento, visto
que comportamento é 'semear', conforme vemos em ( Gl 6:7 -8).
De igual modo, o Fruto do Espírito não diz de comportamento humano,
antes diz daquilo que o Espírito produz naqueles que vivem e andam em Espírito,
por terem crucificado a carne com as suas paixões e concupiscência ( Gl 5:22
-24).
O fruto que os cristãos judeus precisavam produzir era o fruto dos
lábios que professa àquele que os santificou, ou seja, a Cristo "Portanto,
ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos
lábios que confessam o seu nome" ( Hb 13:15 ). Compare: ( Pv 18:20 ; Is
57:19 ; e Mt 7:20 ).
"Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre" ( Pv
18:20 ), ou seja, é o mesmo que: "Raça de víboras, como podeis vós dizer
boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a
boca" ( Mt 12:34 ), visto que, segundo aquilo que professa um homem
podemos saber se ele é uma árvore boa ou má Mt 7: 18. Se ele é ou não nascido
da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.
Segue-se que 'a morte e a vida está no poder da língua', visto que
aquele que professar a Cristo receberá poder para ser feito filho de Deus ( Jo
1:12 ), e aquele que não professar, já está condenado à morte eterna ( Pv 18:21
; Jo 3:18 ).
Desta forma temos: tenha o vosso fruto, ou seja, professe a Cristo, e
por fim, obtenha a vida eterna.
23 Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a
vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.
Segue o motivo pelo qual é preciso ao homem professar a Cristo como
Senhor: o salário do pecado é a morte, ou seja, o escravo do pecado só terá a
morte como possessão.
Em contra partida, o dom gratuito de Deus para aqueles que tem o seu
'fruto' para a santificação é a vida eterna.